Curso com botânico Gustavo Martinelli foi uma intensa troca de experiências

Curso com botânico Gustavo Martinelli foi uma intensa troca de experiências

Evento online reuniu a equipe do JBA em maio para ouvir as dicas e comentários deste pesquisador essencial para a conservação de espécies nativas do Brasil

Por Tânia Rabello

Um momento de aprendizado mútuo e de troca de experiências em favor do meio ambiente e das florestas brasileiras, ou do bioma Mata Atlântica. Assim foi a “roda de conversa” online ministrada pelo biólogo dr. Gustavo Martinelli, no dia 26 de maio, para a equipe do Jardim Botânico Araribá (JBA), sob o tema “Estratégias para Planejamento e Execução de Projetos de Restauração Ecológica com Espécies Ameaçadas de Extinção”. O evento fez parte do curso de capacitação previsto no projeto de conservação de espécies ameaçadas de extinção, em parceria com a Fundação Franklinia.

Martinelli, que é biólogo com mestrado em botânica e doutorado em ecologia, foi, durante 48 anos, pesquisador do Instituto de Pesquisa Jardim Botânico do Rio de Janeiro, onde estudou bromélias por 15 anos, entre outras inúmeras atividades. Além disso, criou o Centro Nacional de Conservação da Flora, que atualizou a lista das espécies vegetais do Brasil ameaçadas de extinção, dentro do Livro Vermelho da Flora do Brasil”, organizado por ele e por Miguel Ávila Moraes. De quebra, possui uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) no município de Petrópolis (RJ), a RPPN Pedra dos Amarílis, e, atualmente, é membro do Conselho Internacional do Botanic Gardens Conservation International (BGCI).

Tamanha bagagem não impediu que ele crivasse de perguntas os “alunos” do curso online para entender melhor os trabalhos realizados dentro do JBA e também da RPPN Duas Cachoeiras, onde está sediado o Jardim Botânico, no município paulista de Amparo.

Indagou principalmente sobre o trabalho desenvolvido no JBA, em parceria com o BGCI e com a Fundação Franklinia, de preservação de espécies de árvores nativas da Mata Atlântica ameaçadas de extinção. Ouviu sobre as metodologias adotadas pela equipe do JBA em relação à coleta de sementes, identificação das espécies, andamento dos trabalhos e muito mais.

E ficou feliz ao ver, dentro da equipe do JBA, “tantas pessoas, de diferentes  áreas, com os olhos brilhando” quando o assunto é preservar a flora da Mata Atlântica. “Fico feliz em estar no meio de pessoas idealistas, com interesses semelhantes, trabalhando com espécies ameaçadas e áreas protegidas”, comentou. Participaram do curso, ao todo 20 técnicos, membros do JBA, da Frepesp e das RPPN participantes do projeto.

Ao fim de cerca de duas horas de trocas de experiência e conversa – muito mais conversa do que um curso na acepção da palavra –, ficaram ensinamentos de Martinelli sobre, por exemplo, a importância de conceituar os trabalhos ambientais ligados a matas nativas, sejam eles de restauração ecológica, de reflorestamento, de restauração, recuperação ou enriquecimento. A definição correta pode ser determinante para eventuais patrocinadores aceitarem ou não financiar projetos, lembrou o botânico.

Ele explicou que o conceito está intrinsecamente ligado ao contexto dentro do qual se quer encaixar o projeto. “No contexto global, o projeto de vocês está muito bem encaixado”, avaliou. “Está dentro da estratégia internacional de conservação de plantas e espécies.” Mas ele chamou a atenção para conceitos e contextualização nacionais, estaduais e regionais. “Há conceitos globais que não se aplicam a conceitos locais, pois temos uma série de complexidades, somos um país com a maior biodiversidade do mundo.

”Ele disse, por exemplo, que, no Bioma Mata Atlântica, o conceito “conservação” já não se aplica, tendo em vista que 85% dessa floresta nativa está extinta. “Aqui, então, o conceito correto em um eventual projeto é restauração, embora, claro, seja muito mais caro restaurar do que conservar.”
Outra importante recomendação dada por Martinelli em relação à busca por recursos para projetos ambientais também se liga ao contexto para o qual a iniciativa será direcionada. “A ideia de fundo é salvar plantas, mas se eu falar que isso vai contribuir para o fornecimento de água para a cidade e a população, os argumentos e estratégias passam a ser diferentes”, disse ele, acrescentando que o motivo “conservação de água” pode ser essencial para atração de recursos.

Outro aspecto que rendeu elogios de Martinelli ao projeto feito pelo JBA em parceria com o BGCI e a Franklinia foi justamente o fato de a iniciativa já estar sendo financiada por um órgão internacional. “Minha experiência diz que, quando você tem um financiamento internacional, isso se transforma em uma grande alavanca (para a captação de mais recursos)”, disse. “É muito mais difícil alguém dar dinheiro para um projeto  que não tem dinheiro nenhum e mais fácil destinar recursos para um projeto já reconhecido, sobretudo no exterior, caso deste projeto.”

Chamou a atenção também para o fato de, ao se trabalhar com espécies nativas da flora brasileira, certificar-se de que as espécies com as quais se está trabalhando são efetivamente aquelas discriminadas no projeto. Citou, por exemplo, que o jequitibá – árvore-símbolo do Estado de São Paulo – tem pelo menos três espécies. “É sempre bom, por isso, consultar um especialista em botânica e em taxonomia de plantas para se ter a certeza da espécie em todas as etapas dos trabalhos. ”

Discutiu-se, adicionalmente, sobre a melhor forma de fichar as espécies vegetais. E sobre a importância de fichar corretamente e também de “casar” essas fichas com os protocolos de propagação numa base de dados, “o que permitirá ter uma visão bem interessante e prática das espécies”, disse o botânico.

Ao fim de várias dicas dadas por Martinelli e também das explicações sobre o trabalho feito no JBA apresentadas pela equipe, o botânico encerrou a “aula” satisfeito: “Vocês têm um projeto que pode, inclusive, se transformar em um ótimo exercício para captação de mais recursos, inclusive públicos”. Ele acrescentou que o projeto do JBA de multiplicação de espécies nativas ameaçadas de extinção também pode se encaixar no tema “mudanças climáticas”. E finalizou: “Na verdade, o que ‘se vende’ não é um projeto, mas uma ideia, com brilho nos olhos”.

 

 

 

 

 

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